A população LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-binários e outras identidades e orientações sexuais não especificamente representadas pelas letras anteriores) tem sido alvo de agressões e microagressões associadas a múltiplos fatores sociais (Balsan et al., 2011) que afetam sua saúde física e emocional. Apesar dessa LGBTfobia perpassar diversos setores da sociedade, alguns de seus aspectos desencadeiam maior intensidade de sofrimento psíquico (Araujo, 2022), dentre eles, os advindos de família, amigos, política e grupos religiosos. A experiência de enfrentar a LGBTfobia nesses contextos pode levar ao sofrimento psíquico, por meio de sentimentos como medo, isolamento, culpa e negação de si mesmos, o que impacta a saúde mental e emocional dessas pessoas. Por isso, minorias sexuais tendem a apresentar alto risco de desordens mentais como ansiedade, depressão, distúrbios de sono e risco aumentado de abuso de substâncias (Dornelles et al., 2023), burnout, ansiedade e depressão (Alckmin-Carvalho et al., 2024). Corroborando a gravidade desses achados, Medeiros et al. (2023) encontraram prevalência de sintomas depressivos em adolescentes LGBT entre 15 e 19 anos.
A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ expressa por preconceito, discriminação e estigmatização pode ter origens variadas e complexas (Araujo, 2022; Araujo et al., 2022; Aufranc, 2018; Ortiz et al., 2020). Manifestações de violência têm origem em fatores socioculturais, características individuais e dinâmicas intergrupais, onde a hostilidade e a exclusão entre diferentes grupos sociais se tornam evidentes (Baracat et al., 2020; Marinho et al., 2004). Essa violência multifacetada reflete a interação entre diferentes esferas sociais e individuais, contribuindo para a perpetuação de desigualdades e injustiças (Franco, 2022a, 2022b; Kimbles, 2014) que podem contribuir para o aumento do sofrimento psíquico dessas identidades (Crenshaw, 1991/2000).
Abordar o sofrimento de modo multidimensional é necessário para sua compreensão. O sofrimento faz parte do processo de formação da identidade e da luta pelo fim das desigualdades (Araujo, 2022; Silva e Silva, 2011), sendo parte integrante do processo de individuação. Silva e Silva (2011, p. 94), inspirado em Kierkegaard (1847/2007), compreende o sofrimento “como condição necessária para que os seres humanos se tornem ‘indivíduos’”. Esse autor afirma que em Kierkegaard o sofrimento não tem caráter aterrorizante, mas um sentido existencial;
...sofrer é compreender a profundidade das coisas, limitando o esquecimento de si mesmo e é, ao mesmo tempo, o modo da compreensão de si, sabendo que o aprofundamento das coisas não se dá somente no próprio sofrimento (no pathos), mesmo que seja o pathos o meio pelo qual o homem pode chegar a compreender a si mesmo (Silva e Silva, 2011, p. 94).
Numa visão kantiana (Araujo, 2022), o sofrimento não é um fim em si, mas uma condição inerente à existência humana, podendo configurar-se como uma oportunidade para o desenvolvimento moral e para o exercício da razão prática. Desta forma, o sofrimento não seria bom ou indesejado, mas uma fonte de mal e injustiça, especialmente quando imposto sobre os outros. Schopenhauer (1788/2005, 1788/2019), em sua visão pessimista da vida, revela que o sofrimento faz parte da vida e decorre da “vontade de viver”. Ele é um impulso fundamental que está por trás de todas as ações e desejos humanos.
Jung (1916/2014) assegura que o sofrimento é parte fundamental do processo de individuação, no qual a expansão da consciência é frequentemente acompanhada de intensa dor. O processo de individuação envolve fazer escolhas e, ao se escolher um caminho, renuncia-se a outros, sendo necessário assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas.
No contexto das identidades LGBTQIAPN+, o sofrimento considera como a opressão, a estigmatização, o preconceito e a violência influenciam a saúde mental. A discriminação, a invisibilização e a pressão para conformação às normas heterocisnormativas resultam em exclusão, ansiedade, depressão e, em casos extremos, em suicídio, gerando muito sofrimento psíquico em suas vítimas (Araujo, 2022; Araujo et al., 2022; Baracat et al., 2020; Costa et al., 2024; Jung, 1916/2014; Li et al., 2023; Meyer, 2003; Ortiz et al., 2020; Tagliamento et al., 2020). Aguirre-Sánchez-Beato (2020) observa que “as pessoas trans ainda são amplamente definidas como não normais” (p. 11-12).
O sofrimento psíquico das pessoas LGBTQIAPN+ é determinado por aspectos multifatoriais, sobretudo motivado por questões sociais como preconceito, discriminação, rejeição, exclusão, questões culturais e psicológicas, que impactam diretamente sua saúde mental e seu bem-estar (Araujo, 2022; Borrillo, 2010; Franco, 2022a, 2022b; Marinho et al., 2004; Quinet & Jorge, 2020; Torres et al., 2021). Ao promover o preconceito, a discriminação, a estigmatização e a exclusão, essa marginalização cria um ambiente hostil onde identidades LGBTQIAPN+ são constantemente menosprezadas, desqualificadas e perseguidas (Bolissian et al., 2023; Perucchi et al., 2014; Sousa Jr. & Mendes, 2021).
Como resultado dessa marginalização, a comunidade LGBTQIAPN+ enfrenta um processo contínuo de desumanização que alimenta sentimento de insegurança, medo, isolamento social e autoestima rebaixada, tornando-a mais vulnerável ao adoecimento psíquico, ao desenvolvimento de transtornos mentais, de sintomas somáticos e a temores de sofrer violência, de ser violentada sexualmente e de ser assassinada (Araujo, 2022; Bolissian et al., 2023; Borrillo, 2010; Marinho et al., 2004, Perucchi et al., 2014; Quinet & Jorge, 2020). Essas vulnerabilidades ao adoecimento psíquico podem levar a sofrimento psíquico (Araujo, 2022; Araujo et al., 2024; Freitas, 2019; Rodrigues et al., 2020).
No contexto brasileiro, o sofrimento psíquico da população LGBT decorre de múltiplos fatores estruturais. Estudo de Batista et al. (2024) revelou prevalência de depressão autorreferida de 23,7% e comprovou que a homofobia internalizada aumenta em 80% o risco de depressão entre pessoas homossexuais. Oliveira Neto e Moura Junior (2023) destacam que este tipo de estigma interno eleva significativamente a ansiedade, o pânico, a automutilação e o risco de suicídio.
No Brasil, a violência contra a comunidade LGBT tem aumentado muito. O Dossiê de Mortes e Violências Contra LGBTI+ no Brasil (Grupo Gay da Bahia, 2023) registrou um aumento de 177% no período de 23 anos (2000-2023), totalizando 5820 mortes violentas, uma a cada 27 horas. Pessoas transsexuais foram as mais assassinadas. Tal cenário coloca o Brasil entre as nações com os mais elevados índices de violência contra pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo contra pessoas trans, evidenciando a urgência da formulação e implementação de políticas públicas efetivas no combate à discriminação e à violência motivadas por questões de gênero e sexualidade (Araujo et al., 2024; Xavier & Vianna, 2023). Duas áreas geográficas do Brasil, Nordeste e Sudeste (34,35% cada uma), concentram as mortes violentas.
Assim, interseccionalidade de fatores como origem regional, gênero, raça, classe, sexualidade e outras categorias pode intensificar esses impactos, configurando uma teia complexa de vulnerabilidades que perpassa o âmbito pessoal e o coletivo (Crenshaw, 2000). Por isso, é crucial compreender esse sofrimento levando em consideração as especificidades das vivências LGBTQIAPN+.
Entretanto, a preocupação da literatura científica com a saúde mental dessa população é recente. Revisão nas bases de dados dos Periódicos CAPES entre 1959 e 1990 revela apenas 122 artigos revisados por pares que citam o termo LGBT em qualquer campo. Este número aumentou entre 1991 e 2025 para 8479 artigos. Uma revisão de 10 anos nas bases de dados dos Periódicos Capes em artigos com os termos mental health, psychosocial risk e LGBT revelou 80 itens. Ao acrescentar scale retornou apenas 12 artigos e nenhum de produção nacional (com os mesmos termos em português). Nenhum artigo foi encontrado ao associar os termos sofrimento psíquico com risco psicossocial, em português e inglês. Associação entre os termos psychological suffering e LGBT retornou cinco artigos em período de 10 anos, mas nenhum envolvendo escalas de medidas. A associação de psychological distress, LGBT e scale retornou 22 artigos, mas apenas quatro relacionados a esta pesquisa, desta feita em período de 15 anos. Apenas dois deles envolviam construção, adaptação ou validação de escalas. Tais dados evidenciam uma lacuna significativa na área da Avaliação Psicológica no que se refere à atenção dedicada a grupos minorizados, especialmente no que tange à saúde mental da população LGBT. A escassez de instrumentos psicométricos validados para essa população compromete a eficácia das práticas avaliativas. Considerando que instrumentos psicológicos consistem em ferramentas essenciais para a realização de diagnósticos mais ágeis e precisos, sua utilização adequada pode contribuir substancialmente para o aprimoramento de políticas públicas voltadas a esses grupos vulnerabilizados.
Em 2011, Balsam et al. destacaram a falta de medidas para avaliar o estresse psicológico da população LGBT, no caso de seu estudo, associado a minorias raciais/étnicas. Os participantes eram negros americanos da comunidade LGBT. Os autores identificaram três fatores ou subescalas: Racismo em comunidades LGBT, Heterossexismo em Comunidades de Minorias Raciais/étnicas e Heterossexismo e Racismo em Namoro e Relacionamentos Próximos.
Mozumder (2017)dedicou-se a validar a Escala de Estresse Percebido Bengali (PSS) para a população LGBT de Bangladesh. Identificou dois fatores, como Luft et al. (2007) e Örücü e Demir (2009): desamparo percebido e autoeficácia percebida. Outros estudos relatam a adaptação e a verificação de indicadores de validade de escalas de avaliação de homofobia, como, por exemplo, no Brasil, o de Marinho et al. (2004) com a Escala de Homofobia Implícita e Explícita e o de Lira e Morais (2019) com a Escala de Homofobia Internalizada. Esta última é bastante estudada e utilizada em investigações em outras partes do mundo, como por exemplo, por Del Pino et al. (2021). Mais recentemente, Barros e Landin (2024) traduziram e adaptaram para o contexto brasileiro a Escala de Discriminación Percibida en la Comunidad LGBT, desenvolvida em Porto Rico. Análise fatorial exploratória revelou dois fatores, como na escala original: discriminação individual e discriminação coletiva.
Entretanto, não se localizou nenhum instrumento de avaliação de sofrimento psíquico voltado para a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil. Assim, para colaborar com a solução deste gap na literatura, este estudo propôs-se a construir uma escala para avaliar sofrimento psíquico em população LGBTQIAPN+ no Brasil e buscar evidências de validade baseadas no conteúdo, na estrutura interna e na relação com outras variáveis, bem como identificar a precisão dos escores (American Educational Research Association et al., 2014). Hipotetiza-se que o construto de sofrimento psíquico seja próximo ao de estresse e esteja positivamente relacionado ao predomínio de afetos negativos e de depressão.
Método
Elaboração da Escala de Avaliação de Sofrimento Psíquico-ESOP
A ESOP foi desenvolvida a partir do estudo de Araújo (2022) que identificou o sofrimento psíquico entre 12 pessoas gays e lésbicas por meio de análise de conteúdo de entrevistas realizadas. Araújo identificou oito categorias de conteúdo: medo, preconceito, discriminação, negação de si mesmo, sofrimento, publicização da sexualidade, publicização da violência sofrida e educação/informação.
Neste estudo, a partir dessas categorias, foram definidos 25 conteúdos semânticos e gerados 118 itens para representar essas dimensões, depois de submetidos à avaliação de quatro juízes psicólogos(as) para apuração da relevância, da representatividade do item para a definição de cada dimensão, de sugestões de alterações (Damásio & Borsa, 2017) e de alterações na redação de 13 itens.
Dois dos juízes eram estudiosos em sofrimento psíquico e atuavam ainda em construção de escalas, outro era especialista no construto e o quarto atuava apenas em construção de escalas. A eles foram enviadas as definições constitutivas das dimensões e subdimensões e uma relação dos itens. A tarefa dos juízes era indicar a qual dimensão/subdimensão ele(a) julgava pertencer cada item. Além disso, cada juiz(a) poderia sugerir uma redação que julgasse mais adequada (clara) para o item. Caso houvesse sugestão de reformulação, a redação do item voltava ao grupo de juízes para nova avaliação. O nível de acordo mínimo exigido para manutenção do item foi de 80%.
A seguir foi realizada análise semântica com grupo focal composto por quatro pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ (uma lésbica, um gay, um bissexual e um transsexual) dos seguintes níveis educacionais: um do ensino fundamental, dois de ensino médio e um com especialização. Este grupo analisou a compreensão e a clareza dos itens. Como resultado, a escala foi reagrupada em oito conjuntos semânticos com 108 itens. Esse conjunto foi submetido à nova avaliação de outros três juízes psicólogos, um deles especializado em atendimento psicológico à população LGBTQIAPN+ e outros dois especialistas em construção de testes/escalas. Um total de 91 itens atingiu o nível mínimo de acordo de 80%. Esses itens compuseram a escala para avaliação empírica. A escala de respostas da ESOP era do tipo Likert de cinco pontos.
Participantes
Participaram deste estudo 493 pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+, 245 com ensino superior completo ou acima dele. A maioria declara-se branca, solteira e com menos de 34 anos. Mais da metade mora só ou com apenas uma pessoa. A grande maioria declara-se cisgênero. Mais de um terço declarou-se homossexual e quase um quarto afirmou ser lésbica. Grande parte declara-se sem religião, sendo os demais pertencentes a doze diferentes denominações religiosas. Foram coletadas informações sobre identidade de gênero, expressão de gênero e orientação sexual. Orientação sexual diz respeito ao interesse afetivo/sexual de uma pessoa pela outra (Araujo, 2025; Silva et al., 2020). Identidade de gênero refere-se à percepção que a pessoa tem de si mesmo, independentemente de seu sexo biológico (Araújo, 2025; Araújo et al., 2022), enquanto expressão de gênero é a forma como a pessoa se apresenta ao mundo. A Tabela 1 detalha as características dos participantes.
Tabela 1 Descrição dos participantes do estudo (n=493)
| Frequência | Porcentagem | Porcentagem acumulada | ||
|---|---|---|---|---|
| raça/cor | Branca/o | 336 | 68,2 | 68,2 |
| Preta/o | 38 | 7,7 | 75,9 | |
| Parda/o | 104 | 21,1 | 97,0 | |
| Amarela/o | 13 | 2,6 | 99,6 | |
| Indígena | 2 | 0,4 | 100,0 | |
| estado civil | Solteiro/a | 357 | 72,4 | 72,4 |
| Casado/a | 116 | 23,5 | 95,9 | |
| Divorciado/a | 19 | 3,9 | 99,8 | |
| Viúvo/a | 1 | 0,2 | 100,0 | |
| faixa etária | 18 anos - 24 anos | 124 | 25,1 | 25,1 |
| 25 anos - 34 anos | 173 | 35,1 | 60,2 | |
| 35 anos - 44 anos | 108 | 21,9 | 82,1 | |
| 45 anos - 54 anos | 59 | 12,0 | 94,1 | |
| 55 anos - 64 anos | 25 | 5,1 | 99,2 | |
| 65 anos - 74 anos | 3 | 0,6 | 99,8 | |
| 75 anos - 84 anos | 1 | 0,2 | 100,0 | |
| número pessoas na residência | 1 | 108 | 21,9 | 21,9 |
| 2 | 195 | 39,6 | 61,5 | |
| 3 | 82 | 16,6 | 78,1 | |
| 4 | 68 | 13,8 | 91,9 | |
| 5 | 25 | 5,1 | 97,0 | |
| 6 | 9 | 1,8 | 98,8 | |
| 7 ou mais | 6 | 1,2 | 100,0 | |
| renda familiar | Sem rendimento | 12 | 2,4 | 2,4 |
| Até R$ 165,00 | 2 | 0,4 | 2,8 | |
| R$ 166,00 a R$ 330,00 | 7 | 1,4 | 4,2 | |
| R$ 331,00 a R$ 660,00 | 2 | 0,4 | 4,6 | |
| R$ 661,00 a R$ 1.320,00 | 19 | 3,8 | 14,4 | |
| R$ 1.321,00 a R$ 2.640,00 | 54 | 11,0 | 19,4 | |
| R$ 2.641,00 a R$ 3.960,00 | 80 | 16,2 | 35,6 | |
| R$ 3.961,00 a R$ 6.600,00 | 132 | 26,8 | 62,4 | |
| R$ 6.601,00 a R$ 13.200,00 | 111 | 22,5 | 88 | |
| Acima de R$ 13.200,00 | 74 | 15,0 | 100 | |
| nacionalidade | Brasileira | 486 | 98,6 | 98,6 |
| Estrangeira | 7 | 1,4 | 100,0 | |
| escolaridade | Ensino fundamental | 7 | 1,4 | 1,4 |
| Ensino médio | 150 | 30 | 31,2 | |
| Ensino superior | 156 | 32 | 62,8 | |
| Especialização | 118 | 24 | 86,7 | |
| Mestrado | 40 | 8,1 | 94,8 | |
| Doutorado | 22 | 4,5 | 100 | |
| sexo biológico | Feminino | 256 | 51,9 | 51,9 |
| Masculino | 230 | 46,7 | 98,6 | |
| Intersexo | 7 | 1,4 | 100,0 | |
| identidade de gênero | Cisgênero | 366 | 74,2 | 74,2 |
| Transgênero (Travesti) | 10 | 2,0 | 76,3 | |
| Transgênero (Transexual) | 55 | 11,2 | 87,4 | |
| Não-binário | 48 | 9,7 | 97,2 | |
| Outro | 14 | 2,8 | 100,0 | |
| expressão de gênero | Feminina | 223 | 45,2 | 45,4 |
| Masculina | 216 | 43,8 | 89,1 | |
| Andrógina | 41 | 8,3 | 97,4 | |
| Outra | 13 | 6,0 | 100,0 | |
| orientação sexual | Heterossexual | 19 | 3,9 | 3,9 |
| Gray sexual | 4 | 0,8 | 4,7 | |
| Outra | 17 | 3,4 | 8,1 | |
| Homossexual/Gay | 172 | 34,9 | 43,0 | |
| Lésbica | 117 | 23,7 | 66,7 | |
| Bissexual | 97 | 19,7 | 86,4 | |
| Assexual | 11 | 2,2 | 88,6 | |
| Pansexual | 41 | 8,3 | 97,0 | |
| Demissexual | 14 | 2,8 | 99,8 | |
| Autossexual | 1 | 0,2 | 100,0 | |
| orientação religiosa | Budismo | 9 | 1,8 | 1,8 |
| Testemunha de Jeová | 2 | 0,4 | 2,2 | |
| Tradições esotéricas | 2 | 0,4 | 2,6 | |
| Umbanda | 46 | 9,3 | 12,0 | |
| Umbanda e Candomblé | 14 | 2,8 | 14,8 | |
| Wicca | 3 | 0,6 | 15,4 | |
| Não sabe | 30 | 6,1 | 21,5 | |
| Sem religião | 191 | 38,7 | 60,2 | |
| Outra | 32 | 6,5 | 66,7 | |
| Candomblé | 12 | 2,4 | 69,2 | |
| Católica | 45 | 9,1 | 78,3 | |
| Espírita | 37 | 7,5 | 85,8 | |
| Espiritualista | 23 | 4,7 | 90,5 | |
| Evangélica | 25 | 5,1 | 95,5 | |
| Múltiplo pertencimento | 22 | 4,5 | 100,0 |
Nota. Elaborada por autores.
Instrumentos
O instrumento em construção foi nomeado Escala de Sofrimento Psíquico em Diversidade Sexual e de Gênero - ESOP.
Inventário de Depressão de Beck - BDI adaptado de Beck et al. (1996) por Gandini et al. (2007) com 13 itens, unifatorial. Gandini et al. modificaram os itens e a escala de respostas, reorganizando-a de modo hierarquizado crescente, variando da ausência à presença forte de sintomatologia depressiva. Possui alfa de Cronbach de 0,86 e é respondida em escala tipo Likert de quatro pontos. Exemplos de itens: “Sinto que tenho falhado mais que a média das pessoas”; “Não choro mais que o costume”. Neste estudo, a consistência interna (alfa de Cronbach) foi de 0,93.
Questionário Psicossocial de Copenhagen - COPSOQ-I (Silva et al., 2017) avalia aspectos relacionados ao ambiente organizacional que podem impactar a saúde mental, física e o bem-estar dos trabalhadores. Foi utilizado o fator Saúde e Bem-estar do COPSOQ-I, composto por 15 itens distribuídos em cinco subfatores (Estresse Somático, Estresse Cognitivo, Estresse Comportamental, Vitalidade, Saúde Física e Saúde Mental) com indicadores de confiabilidade composta (CC) superiores a 0,70 e respondido em escala tipo Likert de cinco pontos. Exemplos de itens: “Apresentou aperto ou dores no tórax?”; “Achou difícil pensar com clareza?” “Senti-me irritado”; “Sentiu-se cansado”. Valores de consistência interna (alfas de Cronbach) neste estudo foram de 0,76, 0,85, 0,72, 0,82 e 0,83, respectivamente.
Escala de Afetos Positivos e Negativos - PANAS-20 (Nunes et al., 2019) avalia dois fatores, afetos positivos e negativos, cada um com dez itens e alfas de Cronbach de 0,88 e 0,87 respectivamente. A PANAS é respondida em escala de intensidade de cinco pontos. Exemplos de itens: “Ativo”, “Culpado”. Neste estudo, a consistência interna (alfa de Cronbach) foi de 0,91 para ambos os fatores.
Questionário sociodemográfico buscou informações sobre sexo biológico, expressão de gênero, identidade de gênero, raça/cor, renda familiar, nacionalidade, escolaridade.
Procedimentos
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo. O estudo foi divulgado em redes sociais (Facebook e Instagram) e os participantes, todos maiores de 18 anos, só acessavam os questionários por meio de link do Google Forms, depois de concordarem e assinarem digitalmente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que explicava os objetivos e procedimentos da pesquisa e garantia a confidencialidade das informações. O link permaneceu ativo por três meses durante o ano de 2023.
Análise de Dados
Análise Fatorial Exploratória (AFE) foi utilizada para analisar a estrutura fatorial do instrumento. Utilizou-se AFE porque não havia teoria ou evidências empíricas suficientes que sustentassem a estrutura proposta (Damásio & Dutra, 2017). A AFE foi realizada por meio do Statistical Package of Social Sciences (SPSS), versão 22.0 (IBM, 2013). Utilizou-se o método de extração dos eixos principais (PAF) e rotação Promax. A adequação da fatoração foi analisada por meio dos testes de Kayser-Meyer-Olkin (KMO) e de esfericidade de Bartlett. Análise Paralela com permutação aleatória dos dados foi usada para decidir o número de fatores a serem retidos (Ferrando et al., 2022). Foram retidos itens com cargas fatoriais iguais ou maiores do que 0,30 (Ferrando et al., 2022). A fidedignidade dos fatores foi avaliada pelo alfa de Cronbach e por confiabilidade composta (CC), conforme recomendam Valentini e Damásio (2016).
Resultados
A fatorabilidade da matriz de dados foi confirmada pelo determinante de baixa magnitude (3,356E-26) e diferente de zero (<0,000001), pelo KMO de 0,95, avaliado como muito bom (Ferrando et al., 2022) e pelo teste de Bartlett (χ²=27441,43, gl=2415, p<0,01) revelando ainda a adequação do tamanho da amostra.
A análise da matriz de correlações, de maioria significativa, sinalizou a possibilidade da redução dos itens a fatores. O número adequado de fatores foi definido pelos valores próprios, variância explicada e comparação entre valores próprios empíricos iguais ou maiores do que 1 e com valores próprios aleatórios obtidos por análise paralela. Oito fatores satisfizeram a esses critérios (Tabela 2) e, conjuntamente, explicaram 61% da variância do construto investigado. Esses fatores reuniram 52 itens dos 872 que compunham a escala construída, depois de eliminados itens com cargas menores do que 0,30, além de seis itens de cargas complexas ou duplas (Ferrando et al., 2022) (itens 15, 26, 34, 45, 54 e 83) e o item 86, pela dificuldade de interpretação semântica para mantêlo no fator ao qual a análise fatorial o alocou. Os alfas apresentaram valores entre 0,85 e 0,94, enquanto os índices de confiabilidade composta flutuaram entre 0,72 e 0,92 (Tabela 3).
Tabela 2 Variância explicada e valores próprios empíricos e aleatórios
| Fator | Valores próprios iniciais | Variância total explicada | Valores próprios aleatórios | |
|---|---|---|---|---|
| Total | % variância | % acumulada | ||
| 1 | 24,80 | 35,43 | 35,43 | 2,00 |
| 2 | 4,23 | 6,04 | 41,47 | 1,90 |
| 3 | 3,78 | 5,40 | 46,87 | 1,88 |
| 4 | 2,43 | 3,47 | 50,35 | 1,81 |
| 5 | 2,30 | 3,29 | 53,64 | 1,79 |
| 6 | 1,99 | 2,84 | 56,48 | 1,74 |
| 7 | 1,77 | 2,52 | 59,00 | 1,69 |
| 8 | 1,69 | 2,41 | 61,42 | 1,68 |
| 9 | 1,46 | 2,09 | 63,51 | 1,68 |
Nota. Elaborada por autores.
Tabela 3 Itens, cargas fatoriais, índices de fidedignidade e variância explicada da ESOP
| No. dos itens | Conteúdo dos itens | Fatores | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | ||
| ES.1 | na autopercepção de LGBT, teve preocupação em sofrer rejeição da família | -0,04 | 0,01 | 0,06 | -0,10 | -0,11 | 0,18 | -0,05 | 0,81 |
| ES.2 | LGBTFobia sofrida em espaços religiosos, marcou | 0,09 | -0,07 | 0,02 | 0,45 | 0,02 | -0,03 | -0,09 | 0,11 |
| ES.5 | sofreu LGBTFobia de amigos | 0,22 | -0,03 | -0,04 | -0,03 | -0,02 | 0,35 | 0,05 | 0,01 |
| ES.6 | depois de LGBTFobia sofrida, teve pensamentos suicidas | -0,09 | 0,46 | 0,05 | 0,00 | 0,01 | 0,00 | 0,01 | 0,31 |
| ES.7 | Depois de LGBTFobia sofrida, perdeu prazer em atividades que traziam alegria. | 0,01 | 0,77 | -0,08 | -0,00 | -0,03 | -0,04 | -0,04 | -0,15 |
| ES.9 | sofreu discriminação, por orientação sexual e/ou identidade de gênero. | 0,69 | -0,03 | 0,02 | 0,03 | 0,02 | -0,06 | 0,05 | 0,02 |
| ES.10 | sofreu LGBTFobia na sociedade | 0,67 | 0,02 | 0,05 | 0,06 | 0,05 | -0,07 | 0,06 | -0,05 |
| ES.11 | depois da LGBTFobia sofrida, faz uso de medicação para oscilação de humor. | 0,05 | -0,01 | 0,96 | -0,02 | 0,04 | -0,01 | 0,03 | 0,16 |
| ES.12 | LGBTFobia sofrida pela sociedade, marcou | 0,29 | 0,36 | 0,11 | 0,04 | 0,10 | 0,02 | 0,01 | -0,18 |
| ES.14 | sofreu ofensas/ xingamentos por orientação sexual e/ou identidade de gênero. | 0,64 | -0,04 | 0,01 | -0,03 | -0,02 | -0,06 | 0,17 | 0,12 |
| ES.15 | sofreu LGBTFobia na família | 0,36 | 0,12 | 0,05 | 0,03 | 0,05 | -0,22 | 0,02 | -0,08 |
| ES.16 | LGBTFobia sofrida nas redes sociais, marcou | 0,00 | 0,06 | 0,07 | -0,02 | 0,68 | 0,03 | 0,00 | 0,00 |
| ES.17 | desde que sofreu LGBTFobia, faz uso de medicação para ansiedade. | 0,02 | -0,02 | 0,98 | 0,07 | -0,03 | -0,04 | 0,01 | -0,04 |
| ES.19 | luta contra a LGBTFobia, publicizando a sexualidade/ identidade de gênero, por informação/educação | 0,07 | 0,03 | 0,03 | -0,02 | 0,04 | 0,03 | 0,72 | 0,05 |
| ES.20 | na autopercepção de LGBT, teve medo de sofrer violência da família | 0,04 | -0,07 | -0,01 | 0,08 | 0,22 | -0,05 | 0,18 | 0,52 |
| ES.22 | após sofrer LGBTFobia, teve hipervigilância | 0,21 | 0,44 | -0,02 | -0,07 | -0,05 | -0,03 | -0,13 | 0,01 |
| ES.23 | na autopercepção de LGBT, teve medo de sofrer violência de amigos | -0,00 | -0,12 | -0,01 | -0,01 | 0,05 | 0,66 | -0,05 | 0,10 |
| ES.27 | após sofrer LGBTFobia, faz uso de medicação para depressão. | -0,03 | -0,05 | 0,98 | 0,08 | 0,02 | -0,03 | -0,02 | 0,04 |
| ES.29 | luta contra a LGBTFobia, fazendo parte de Movimentos LGBTQIA+ | -0,09 | 0,02 | 0,00 | 0,02 | -0,03 | -0,04 | 0,91 | 0,04 |
| ES.30 | na autopercepção de LGBT, teve angústia por enfrentar a família. | 0,01 | 0,17 | 0,00 | -0,05 | -0,10 | 0,16 | 0,00 | 0,83 |
| ES.31 | após sofrer LGBTFobia, faz uso de medicação para síndrome do pânico. | -0,05 | 0,05 | 0,59 | -0,06 | 0,00 | 0,08 | 0,01 | -0,08 |
| ES.35 | LGBTFobia sofrida em lugares públicos, marcou | 0,65 | 0,10 | 0,02 | -0,03 | 0,00 | -0,03 | -0,12 | -0,04 |
| ES.36 | após sofrer LGBTFobia, teve insônia | 0,13 | 0,49 | 0,06 | -0,05 | 0,03 | 0,04 | -0,10 | 0,18 |
| ES.37 | desde que sofreu LGBTFobia, faz uso de medicamentos | -0,07 | -0,07 | 0,64 | 0,00 | -0,02 | 0,01 | 0,04 | 0,016 |
| ES.39 | luta contra a LGBTFobia, fazendo parte de militâncias | -0,04 | 0,04 | 0,01 | 0,00 | -0,01 | -0,03 | 0,96 | -0,01 |
| ES.40 | na autopercepção de LGBT, sentiu preocupação com rejeição de pessoas religiosas | -0,11 | 0,06 | 0,04 | 0,87 | 0,01 | 0,11 | -0,04 | 0,07 |
| ES.42 | após sofrer LGBTFobia, teve pensamentos acelerados | -0,10 | 0,94 | -0,12 | 0,02 | -0,02 | -0,04 | 0,02 | 0,04 |
| ES.43 | sofreu LGBTFobia nas redes sociais | 0,12 | 0,07 | 0,00 | -0,04 | 0,86 | -0,03 | 0,00 | 0,03 |
| ES.51 | sofreu LGBTFobia em espaços religiosos | 0,29 | -0,15 | -0,06 | 0,57 | 0,02 | -0,13 | 0,00 | 0,09 |
| ES.56 | na autopercepção como LGBT, teve angústia pelo que teria que enfrentar dos amigos | -0,07 | 0,04 | 0,05 | 0,09 | 0,00 | 0,86 | 0,01 | -0,03 |
| ES.57 | LGBTFobia sofrida na escola/ universidade, marcou | 0,46 | 0,04 | 0,20 | 0,06 | 0,02 | -0,06 | 0,00 | -0,01 |
| ES.58 | Violência autoinflingida por perceber-se LGBT | 0,00 | 0,37 | 0,20 | 0,06 | 0,02 | -0,06 | 0,00 | -0,06 |
| ES.59 | sofreu LGBTFobia na escola/universidade | 0,53 | 0,06 | -0,05 | -0,04 | 0,08 | 0,06 | 0,05 | 0,10 |
| ES.60 | na autopercepção como LGBT, teve angústia pelo que teria que enfrentar de pessoas religiosas. | 0,03 | -0,03 | 0,02 | 0,93 | -0,02 | 0,04 | 0,03 | 0,01 |
| ES.62 | sofreu LGBTFobia na Internet | 0,05 | 0,04 | -0,02 | -0,05 | 0,92 | -0,05 | -0,02 | 0,04 |
| ES.64 | na autopercepção como LGBT, sentiu preocupação em sofrer rejeição de amigos | -0,13 | 0,08 | -0,05 | 0,07 | -0,04 | 0,94 | 0,02 | 0,00 |
| ES.65 | sofreu preconceito, devido à orientação sexual e/ou à identidade de gênero. | 0,75 | 0,12 | 0,03 | -0,01 | 0,00 | 0,00 | 0,08 | 0,01 |
| ES.66 | LGBTFobia sofrida na Internet, marcou | 0,02 | 0,00 | 0,05 | 0,04 | 0,80 | -0,04 | 0,02 | -0,02 |
| ES.67 | após sofrer LGBTFobia, teve tristeza | 0,13 | 0,70 | 0,01 | 0,00 | 0,02 | -0,03 | 0,14 | -0,13 |
| ES.71 | após sofrer LGBTFobia, teve pensamentos negativos | -0,01 | 0,98 | 0,07 | -0,11 | 0,01 | 0,02 | 0,00 | -0,02 |
| ES.77 | após sofrer LGBTFobia, teve mudanças de humor | 0,09 | 0,90 | -0,03 | -0,07 | 0,01 | -0,03 | 0,04 | -0,02 |
| ES.78 | na autopercepção como LGBT, sentiu angústia pelo que teria que enfrentar da sociedade | 0,19 | 0,37 | 0,01 | 0,13 | 0,02 | 0,20 | 0,05 | -0,12 |
| ES.79 | sofreu LGBTFobia nas ruas | 1,00 | -0,09 | -0,05 | -0,06 | 0,08 | -0,06 | -0,03 | -0,04 |
| ES.80 | na autopercepção como LGBT, teve medo de sofrer violência de pessoas religiosas | 0,09 | -0,10 | 0,00 | 0,91 | -0,01 | 0,07 | 0,04 | 0,09 |
| ES.81 | LGBTFobia sofrida pela família, marcou | 0,25 | -0,01 | 0,08 | 0,04 | -0,09 | -0,03 | -0,13 | 0,32 |
| ES.82 | após sofrer LGBTFobia, teve ansiedade | -0,04 | 0,82 | 0,13 | -0,09 | -0,04 | -0,03 | -0,01 | -0,02 |
| ES.84 | LGBTFobia sofrida nas ruas, marcou | 0,78 | 0,02 | 0,00 | 0,04 | 0,00 | -0,01 | -0,01 | -0,10 |
| ES.87 | sofreu LGBTFobia em lugares públicos | 1,00 | -0,06 | -0,10 | 0,00 | -0,06 | -0,07 | -0,02 | 0,00 |
| ES.89 | na autopercepção como LGBT, sentiu preocupação em ser rejeitado(a) por divindade(s) e/ou entidade(s) religiosa(s) | 0,00 | 0,12 | 0,02 | 0,56 | -0,13 | 0,02 | -0,07 | -0,13 |
| ES.92 | depois de sofrer LGBTFobia, teve sentimento de culpa | -0,06 | 0,71 | -0,10 | 0,015 | 0,04 | 0,05 | 0,00 | 0,06 |
| ES.93 | LGBTFobia sofrida pelos amigos, marcou | 0,07 | 0,00 | 0,00 | 0,09 | 0,04 | 0,48 | 0,02 | -0,16 |
| No. itens | 11 | 13 | 5 | 6 | 4 | 5 | 3 | 5 | |
| Variância explicada | 35,43 | 6,04 | 5,40 | 3,47 | 3,29 | 2,84 | 2,41 | 2,25 | |
| Alfa de Cronbach | 0,93 | 0,94 | 0,88 | 0,89 | 0,93 | 0,86 | 0,86 | 0,85 | |
| CC | 0,93 | 0,91 | 0,92 | 0,87 | 0,89 | 0,81 | 0,90 | 0,73 | |
Nota. Elaborada por autores
O fator 1 reuniu itens relacionados a experiências de pessoas LGBTQIAPN+ com LGBTfobia, à intensidade das LGBTfobias sofridas e às violências advindas de diferentes fontes por essas pessoas pertencerem ao grupo LGBTQIAPN+ e por isso foi denominado “Sofrimentos em LGBTQIAPN+ decorrentes de LGBTfobia”.
O fator 2 reuniu itens relacionados aos impactos psicológicos e à saúde mental, recebendo, portanto, a denominação: “Impactos psicológicos da LGBTfobia na saúde mental de LGBTQIAPN+”. Tais impactos envolveram aspectos como ansiedade, tristeza, violência autoinfligida, pensamentos suicidas, insônia. O fator 3 foi denominado “Uso de medicamentos decorrentes da LGBTfobia” por reunir itens relacionados à utilização de medicação para controle desses sintomas emocionais.
O fator 4, por sua vez, misturou itens relacionados à intensidade da LGBTfobia sofrida (item 2) com itens relacionados à preocupação devido à sua orientação sexual e/ou identidade de gênero (itens 40 e 89), itens de violências sofridas de diferentes fontes (item 51), de medo de sofrer violência (item 80) e preocupação com rejeição (item 89). Parece, então, haver um conteúdo semântico que reúne esses itens: o temor da rejeição e da violência. Por isso, o fator 4 foi denominado “Medo de sofrer rejeição e violência”.
O fator 5 reuniu itens cujos conteúdos estão relacionados à intensidade da LGBTfobia sofrida (item 16) e violência sofrida de diferentes fontes (itens 43, 62 e 66). O item 16 refere-se à intensidade da LGBTfobia sofrida que pode ter sido interpretada pelos participantes como uma forma de violência ou que pode gerar violência e por isso o fator foi denominado “Experiências de violência sofrida”, pois agressões sofridas pelas redes sociais também são violências sofridas.
Os itens componentes do fator 6 referem-se à violência sofrida de parte de amigos (5, 23, 56), à preocupação em ser rejeitado(a) pelos amigos (item 64) e à intensidade da LGBTfobia sofrida pelos amigos (item 93). Por isso, o fator 6 foi denominado “Rejeição e LGBTfobia advinda de amigos”.
O fator 7 reuniu apenas 3 itens, todos relacionados às “Ações de enfrentamento à LGBTfobia” e por isso foi assim denominado. Já os itens que compõem o fator 8 referem-se a preocupações com a reação da família (item 1), medo de sofrer violência da família (item 20), angústia por temer a reação da família (item 30) e intensidade da LGBTfobia sofrida por parte da família. Assim, este fator foi denominado “Medo da violência familiar advinda da LGBTfobia”.
Os cálculos de correlações entre os fatores da ESOP e os índices de depressão avaliados pelo BDI adaptado (Tabela 4) apontaram que sofrimentos psíquicos da população LGBTQIAPN+ avaliados pela ESOP correlacionam-se positiva e significativamente com depressão, o que faz sentido teórico, pois há coerência semântica e teórica entre pelo menos parte desses fenômenos avaliados pelos oito fatores da ESOP e depressão, o que revela validade convergente da ESOP com o BDI adaptado. Os fatores da ESOP também apresentam validade convergente com Afetos Negativos, Sintomas Depressivos da Escala de Saúde e Bem-estar da COPSOQ, Falta de Vitalidade (à exceção da subescala de Enfrentamento da LGBTfobia) e os três tipos de Estresse avaliados pela COPSOQ, confirmando os indícios de validade convergente da ESOP. Esses resultados podem ser examinados na Tabela 4.
Há indícios de validade discriminante entre alguns fatores da ESOP e Afetos Positivos. Impactos psicológicos, Uso de medicamentos e Violência Sofrida apresentam correlações negativas e fracas com afetos positivos, apontando que existe associação positiva entre esses fenômenos. Os demais fatores não apresentam associação com afetos positivos, confirmando a discriminação entre ambos os construtos, revelando que se trata de fenômenos diferentes, apontando o poder de discriminação da ESOP.
Discussão
Este estudo buscou construir uma escala de avaliação do sofrimento psíquico da população LGBTQIAPN+ para a população brasileira, partindo de um estudo empírico de Araújo (2022). Os procedimentos de construção da ESOP resultaram na elaboração de uma versão preliminar da escala com 87 itens, sendo que, após a verificação das propriedades psicométricas, chegou-se à versão final do instrumento com 52 itens. Esses itens ficaram distribuídos em oito fatores: Sofrimentos em LGBTQIAPN+ decorrentes de LGBTfobia, Impactos psicológicos da LGBTfobia na saúde mental de LGBTQIAPN+, Uso de medicamentos psiquiátricos decorrentes da LGBTfobia, Medo de sofrer rejeição e violência, Experiências de violência sofrida, Rejeição e LGBTfobia advinda de amigos, Ações de enfrentamento à LGBTfobia e Medo da violência familiar advinda da LGBTfobia.
A atenção da literatura com a saúde psicológica da população LGBT é bastante recente. Como revelado anteriormente, a simples citação do termo LGBT era rara nas décadas de 1950 a 1990. Depois disso, os estudos se intensificaram, mas não necessariamente sobre a saúde mental desse grupo. Assim, este estudo atingiu seu objetivo e preencheu um gap importante na literatura da área, principalmente no contexto brasileiro, apresentando um instrumento de avaliação de sofrimento psíquico para esta população.
Os resultados buscaram confirmar empiricamente aqueles do estudo de Araújo (2022), revelando agrupamentos (fatores) que trazem à tona tanto o sofrimento dos participantes quanto os riscos aos quais estão sujeitos. Os conteúdos semânticos dos itens dos fatores da ESOP revelam que o sofrimento, as ações, as experiências e consequências devem-se a riscos aos quais essa comunidade está diuturnamente exposta. Esses achados corroboram afirmações de Araujo (2022), Costa et al. (2024), Meyer (2003) e Tagliamento et al. (2020).
Os “Impactos psicológicos da LGBTfobia na saúde mental” e o “Uso de medicamentos psiquiátricos” parecem relacionados com a vulnerabilidade ao adoecimento psíquico conforme destacaram Araujo (2022), Bolissian et al. (2023), Borrillo (2010), Marinho et al. (2004), Perucchi et al. (2014) e Quinet e Jorge (2020), revelando a fragilidade emocional desses participantes frente à LGBTfobia sofrida. O medo da rejeição e da violência sofridas é revelado em outros fatores, confirmando o ambiente de hostilidade onde as identidades LGBTQIAPN+ vivem (Bolissian et al., 2023; Sousa Jr. & Mendes, 2021) e as consequências para sua saúde mental.
Os fatores identificados na ESOP não podem ser diretamente comparados com os de outra escala publicada. Todavia, há de se cotejá-los com as duas escalas cujos construtos avaliados são tangenciais, a de Balsam et al. (2011) e a de Mozumder (2017). Como Balsam et al. trabalharam com microagressões sofridas por pessoas negras LGBT, seu foco era o preconceito racial. Natural, portanto, que identificassem aspectos mais voltados ao preconceito racial do que contra pessoas LGBT, o que de fato ocorreu. Todavia, o estudo desses autores revela também, como na ESOP, o preconceito contra minorias.
Mozumder (2017), embora tenha tido como temática de estudo o estresse percebido, elege como alvo a população LGBT de Bengali. Encontra fatores comuns a outros estudos: desamparo percebido e autoeficácia percebida. Apesar de ter focado estresse e não sofrimento, ambos são temas relacionados e correlatos. A PSS apresentou uma estrutura bifatorial em outros estudos, inclusive no Brasil (Luft et al., 2007). Todavia, a ESOP revelou uma estrutura composta por oito dimensões, a maioria delas formada por características negativas, de sofrimento, como um dos fatores da PSS, desamparo percebido. Talvez “Ações de Enfrentamento” tenha algo em comum com autoeficácia, definida como crença na própria capacidade de organizar e executar os cursos de ação necessários para produzir determinadas realizações, na aptidão para encarar e agir frente aos problemas relacionados com preconceito sofrido. É preciso sentir-se capaz para tomar ações de enfrentamento, sentir-se autoeficaz. Já os conteúdos dos dois fatores identificados por Barros e Landin (2024), discriminação individual e discriminação coletiva, estão distribuídos pelos fatores da ESOP que envolvem consequências, medos, experiências de LGBTfobia sofrida de indivíduos ou de coletividades.
A ESOP traz contribuições à área de estudo, revelando o arcabouço do sofrimento psíquico das identidades LGBTQIAPN+, ligado aos fatores de risco que o estruturam. Contribui socialmente como instrumento de identificação desse sofrimento, de rápida utilização para os profissionais que trabalham com esta comunidade, podendo colaborar na identificação da necessidade de encaminhamentos urgentes em casos de sofrimento intenso.
Apesar da não representatividade da amostra, este estudo incluiu pessoas LGBT de diversas identidades, diferentes expressões de gênero e de díspares orientações sexuais. Dados sobre os participantes foram exaustivamente descritos (Tabela 1), superando os apontamentos críticos de Freires et al. (2022) que indicam a necessidade de ampliar informações sobre eles para dar maior visibilidade a grupos socialmente minoritários. Apesar disso, não coletamos informações sobre origem geográfica, o que, em estudos futuros, permitiria comparar sofrimentos de grupos LGBT por região.
A ESOP avalia o sofrimento psíquico decorrente da LGBTfobia, sem especificar as características de cada identidade. A violência contra a população LGBTQIAPN+, motivada pela heterocisnormatividade, assim como pelo binarismo e essencialismo de gênero, atinge todas as pessoas não conformes com o padrão hetero e cisnormativo (Araújo, 2025). A estabilidade do modelo deveria ser avaliada por testes posteriores de invariância para grupos específicos de identidade de gênero e orientação sexual.
Todavia, ainda há o que aperfeiçoar neste estudo. O desequilíbrio entre o número de itens de cada fator é um problema a ser solucionado em futuros estudos, pois pode provocar vieses na interpretação da escala, pois a estrutura de fatores com maior número de itens tende a se sobrepor à dos demais por sua maior capacidade de explicação da variância, já que o número de itens tem impacto nisto. Esta desigualdade também interfere na comparabilidade dos fatores, pois aqueles que explicam mais variância possuem maior peso na explicação do construto avaliado (Gregory, 2015; Pasquali, 2003). Além disso, fatores com pequeno número de itens podem não representar toda a complexidade do construto.
Outra recomendação que se faz é a necessidade de se confirmar a estrutura da escala por análise fatorial confirmatória e testar a invariância do modelo. O teste de estrutura apresentado aqui foi uma análise exploratória. Diferentes teorias sobre o sofrimento psíquico na população LGBT (por ex.: Crenshaw, 1991; Meyer, 2003) não esclarecem como se compõe tal fenômeno, o que nos leva a recomendar a confirmação do modelo por análise fatorial confirmatória, bem como o teste da invariância para diferentes grupos.
É necessário ainda ampliar a representatividade de participantes das regiões sociopolíticas brasileiras, de representantes de escolaridade mais baixa, para pretos e brancos, para diferentes níveis de escolaridade, faixas de renda, religiões, diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Estudos posteriores que classifiquem os níveis de sofrimento para esta população em diferentes regiões sociopolíticas poderiam ser úteis para a definição de políticas públicas de saúde mental.














